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Partituras em Braille
Por Fábio Reynol
Agência FAPESP –
Interpretar notas musicais grafadas em uma
partitura é tarefa banal para um músico.
Porém, quando o instrumentista é deficiente
visual essa atividade se torna muito mais
complicada, sem contar os inúmeros
obstáculos enfrentados durante o processo de
aprendizagem musical.
Entender como um deficiente visual aprende a
ler partituras pelo método Braille e
analisar o ensino de música e os recursos
disponíveis para essas pessoas foi o tema da
tese de doutorado “Do toque ao som: ensino
da musicografia Braille como um caminho para
a educação musical inclusiva”.
O trabalho foi defendido e aprovado na
quarta-feira (10/2) por Fabiana Fator Gouvêa
Bonilha, no Instituto de Artes da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
com orientação do professor Claudiney
Rodrigues Carrasco, do Departamento de
Música.
“A motivação da pesquisa surgiu da minha
própria experiência”, contou Fabiana, que é
bacharel em música e deficiente visual desde
o nascimento. Ela explica que o trabalho é a
ampliação de sua dissertação de mestrado,
intitulada “Leitura musical na ponta dos
dedos: caminhos e desafios do ensino de
musicografia Braille na perspectiva de
alunos e professores” e concluída em 2006.
Tanto no mestrado como no doutorado a
estudante contou com apoio de bolsas da
FAPESP. Durante o mestrado ela entrevistou
estudantes de música com deficiência visual
e coletou suas percepções sobre o processo
de aprendizagem.
Entre as conclusões, Fabiana levantou que há
poucos espaços de formação que atendem às
necessidades dos deficientes e a demanda por
esses cursos é grande. Essas dificuldades a
fizeram voltar para o problema da inclusão
musical dos deficientes visuais durante o
doutorado.
A fim de compor a tese, a estudante analisou
todo o processo a ser percorrido por um
deficiente visual que quer ter uma educação
formal em música, a começar pelo desafio de
encontrar ou transcrever partituras para o
código Braille.
Para que a transcrição seja bem-sucedida, é
fundamental a figura do transcritor. “Ele
tem que ser um especialista tanto em música
como em Braille”, apontou. Essa atividade
pode ser desempenhada tanto por pessoas que
enxergam como por deficientes visuais, de
acordo com Fabiana.
Uma das maiores contribuições do estudo foi
a formação de um acervo de cerca de 50
partituras vertidas para o sistema Braille
durante a pesquisa. Esse material já está
disponível no Laboratório de Acessibilidade
da Biblioteca Central César Lattes da
Unicamp.
“A maioria dessas composições é brasileira.
Isso é importante porque podemos fazer um
intercâmbio trocando partituras em Braille
com instituições de outros países”, disse.
Capacidade de abstração
A partitura transcrita, no entanto, é apenas
o início do processo para o estudante com
deficiência visual. Fabiana explica que a
musicografia em Braille exige muito mais do
estudante.
Os símbolos musicais impressos em tinta são
convencionalmente grafados em cinco linhas,
chamadas de pentagrama. Uma composição para
piano, por exemplo, utiliza ao mesmo tempo
dois pentagramas, um para cada mão, e um
acima do outro para indicar a simultaneidade
de algumas notas.
Uma partitura em Braille, por sua vez,
contém apenas caracteres resultantes das
combinações entre seis pontos salientes. O
músico deve interpretar as notas ao toque
dos dedos e ler cada linha separadamente e
assim inferir a simultaneidade das mãos do
piano, por exemplo.
“É preciso um grau de abstração muito maior
e uma sólida formação musical”, disse
Fabiana. Isso além de uma boa memória, uma
vez que o instrumentista deve decorar toda a
partitura antes de executá-la.
A pesquisa obteve um levantamento
qualitativo baseando-se em três
experiências: o aprendizado de musicografia
Braille de dois deficientes visuais e a
capacitação de um professor de música para
ensinar um aluno com deficiência visual.
Como pré-requisito, Fabiana selecionou casos
em que os envolvidos tinham conhecimento
musical prévio e que o desafio, portanto,
seria introduzi-los ao sistema de notação
musical em Braille.
Os alunos escolhidos eram aprendizes de
instrumentos distintos: violão e teclado, o
que exigiu adaptações específicas, pois as
partituras desses instrumentos são
diferentes.
Deficiência congênita ou adquirida
Fabiana conseguiu traçar algumas diferenças
no aprendizado entre deficientes visuais
congênitos (de nascença) e os que adquiriram
a deficiência ao longo da vida.
Entre as pessoas com deficiência visual
desde o nascimento, por exemplo, está a
maior prevalência do chamado ouvido
absoluto, que é a capacidade de identificar
tons musicais em sons isolados.
Isso ocorre porque a deficiência congênita
impõe ao indivíduo uma dependência dos sons
desde muito cedo. “A importância do som
nesses casos é muito maior, pois ele dá toda
a referência do espaço”, disse.
Segundo ela, nesses casos a estrutura
neuronal é formada logo na primeira
infância, visando à enfatizar a audição.
“Pesquisas mostram que algumas regiões do
córtex visual são realocadas para processar
sons nos cérebros de deficientes visuais
congênitos”, disse.
Também para esses, o reconhecimento tátil é
mais desenvolvido. “O Braille torna-se o
primeiro código de escrita, enquanto que na
deficiência adquirida é travado um processo
de readaptação à realidade”, comparou.
Ao desenvolver a pesquisa, Fabiana
colecionou uma série de arquivos sonoros que
compreendiam aulas, além de depoimentos de
deficientes visuais e de professores de
música.
“Achei esse material rico demais para ser
guardado e elaborei um roteiro para unir
esses arquivos em um audiodocumentário”,
conta. Quando o seu orientador ouviu o
piloto, incentivou-a a gravá-lo em estúdio.
O resultado é um documentário de cerca de
dez minutos com uma trilha sonora adaptada
pela própria doutoranda, e efeitos
produzidos por equipamentos Braille além das
vozes captadas ao longo da pesquisa.
O objetivo da produção, segundo ela, foi
retratar a concepção de um deficiente
visual. Por esse motivo, propositadamente, a
estudante não quis utilizar imagens. “Esse
áudio tornou-se a síntese sonora da
pesquisa”, afirmou.
O orientador do trabalho, Claudiney
Carrasco, considera que a tese de Fabiana é
relevante em vários aspectos. “É a primeira
contribuição de peso na pesquisa em
musicografia braille no país e abre um amplo
campo para que mais gente pesquise e
contribua nessa área”, afirmou.
O professor da Unicamp também ressaltou o
aspecto da inclusão inerente da pesquisa.
Para ele, o trabalho traz resultados
práticos que vão auxiliar professores de
música a interagir com alunos deficientes
visuais. “É realmente uma inclusão, não se
trata só de aceitar o aluno cego e deixá-lo
se virar sozinho. Fabiana propõe um trabalho
voltado a atender às necessidades desse
estudante", disse.
É justamente a inclusão do deficiente visual
no ensino regular de música a principal
conclusão da tese, de acordo com Fabiana.
Para ela, não são necessárias escolas
especializadas em deficientes, mas que as
instituições de ensino regulares se adaptem
a esses alunos.
Para isso, explica a musicista, seria
fundamental a participação de três
personagens nesse processo: um professor de
música especialmente preparado, um aluno
consciente e motivado e um especialista
transcritor que possa fornecer material de
estudo de qualidade para o processo. Com
esses elementos, a grande demanda por
instrução musical por parte de deficientes
visuais pode começar a ser atendida, aponta.
Audiodocumentário sobre o ensino da
musicografia Braille:
www.agencia.fapesp.br/audiodocumentario.mp3
Fonte:
http://www.agencia.fapesp.br/materia/11759/partituras-em-braille.htm# |