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Garota de Programa: uma nova embalagem para o mesmo produto

Redação Sexualidade Vida


O panorama histórico mostra a prática da prostituição como um fenômeno atemporal que ultrapassa os limites geográficos, a repressão, o estigma, a discriminação. Tal como água, molda-se ao ethos de cada época, visto estar ancorada ao binômio carência econômica vs carência afetiva, próprio das relações sociais do sistema capitalista. Percebe-se que a cartografia traçada pelos autores comprometidos com a descrição da história da prostituição até os dias atuais permite-nos desvelar lacunas discursivas que nos remetem às seguintes questões: a prostituta tem sido repudiada e estigmatizada ao longo dos tempos – por que, então, a prática da prostituição perpassa os séculos? Atribuir a causa da prostituição a essa mulher estigmatizada, largada, desonrada, silenciada, ressoa como um paradoxo. Em sendo ela tão desqualificada, como pode exercer o domínio sobre seu cativo cliente – o homem? Não é, assim, destituí-lo de seu lugar de dominador? Não seria o homem, enquanto coautor desta prática sexual milenar, também responsável por sua permanência/continuidade através dos séculos?

Se não houvesse a retroalimentação de seu sistema de manutenção certamente já teria sido erradicada, tal como já foram algumas doenças contagiosas.
Com isso quero dizer que sem dúvida houve e há até hoje homens de todas as idades, classes sociais e partidos políticos que se submetem ao poder dessa “mulher desqualificada” para vivenciarem seus momentos de êxtase.

Diante deste fenômeno atemporal dirigimos nossa atenção para a compreensão acerca do que mobiliza a jovem de classe média-alta a se prostituir – mesmo com a independência sexual da mulher moderna. Seria essa prática uma relação de troca comercial, mantida e retroalimentada pela relação de gênero? Seria uma doença? E/ou seria um prazer? Difícil de ser controlado? Outro aspecto a ser indagado é relativo à terminologia usada por essas jovens que se apresentam como garotas de programa e não como prostitutas. Seria esta uma nova embalagem para vender o mesmo produto? Na busca de explicitar essas, entre outras questões, Guimarães e Bruns, autores do livro "Garota de Programa: nova embalagem para o mesmo produto", lançado pela Editora Átomo (2010) em agosto e setembro próximo, oferece ao leitor a oportunidade de conhecer a história de vida de 10 jovens de classe média-alta que se dispuseram a contar suas vivencias sexuais e a apontar as razões que as motivaram a eleger, consciente ou inconscientemente, a prostituição como projeto de realização pessoal e laboral. O foco dessa palestra é refletir/dialogar acerca dessa nova embalagem no momento atual.