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Amélia pós-moderna: isso sim é mulher de verdade!
Salão de beleza; Hair dresser; Cabeleireiro – não importa
o nome! É o espaço do desabafo!
Por Maria Alves de
Toledo Bruns*
Dos mais sofisticados aos mais simples, todos têm algo em
comum: manicures, pedicures, massagistas, cabeleireiras(os)
conhecedores das histórias de muitas mulheres – de todas as
classes sociais e graus de escolaridade. São espaço de
acolhimento e beleza, onde as diferenças se entrelaçam nos
risos, desabafos, lágrimas e glamour! Os bate-papos são
focados na vida real: relação com o marido/parceiro/caso/
ficante; separação; traição; trabalho e filhos entre outros.
Num desses momentos dedicados à manutenção da estética, uma
profissional de um aconchegante espaço de beleza me disse:
"Amélia somos nós... Nós somos a Amélia moderna!".
Indaguei-lhe: Como assim?! E ela respondeu usando a 3ª pessoa
do plural: "Nós agora trabalhamos; cuidamos da casa; queremos
saber se o filho vai bem na escola, no trabalho; se fica
doente, levamos ao médico e sem faltar no trabalho; se sai
para a balada, a preocupação aumenta devido à violência e às
drogas. Para o homem – o pai(?) – ele só ganhou, ganhou
muito!"
Disse outra cliente: "A música dizia que a Amélia passava fome
ao seu lado e achava bonito não ter o que comer...
Completando: Agora, não passamos fome – nem nós e nem ele –
porque trabalhamos". Outra cliente, disse ainda: "O pior é
lidar com os hábitos de higiene dele e a desatenção com as
datas de aniversário. Hoje, por exemplo, estou aqui me
embelezando... Posso colorir meus cabelos de roxo, vermelho,
azul... ele não vê". E assim a conversa continua com o
desabafo dela: "Isso tudo aí não é nada. Eu não espero elogios
dele e muito menos presentes nas datas celebres... Eu compro
os meus presentes. Só queria uma inovação na vida sexual. Essa
tá norma demaisssss".
Essa conversa, e as conversas de mulheres, ressalvadas as
exceções, remete-me ao espaço da clínica e das pesquisas sobre
gêneros, cujas queixas se iniciam por esses desabafos.
Um olhar atento aponta que o significado atribuído ao
relacionamento apresenta matizes diferentes para homens e
mulheres. A moderna Amélia assumiu sua carreira profissional e
a gestão do lar – as compras de supermercado, a lavanderia, a
faxineira, a ornamentação, o acompanhamento do desempenho
escolar dos filhos e a saúde deles, além da necessidade de
manter-se elegante. Após todas essas tarefas desempenhadas em
jornadas duplas e até triplas resta-lhe, lá pela meia-noite,
aguçar suas fantasias sexuais para [quem sabe] encontrar-lo
acordado e a sua espera.
Mudar é preciso! Remetermos à história da educação dirigida
aos gêneros ajuda-nos a entender, mas é preciso disposição e
ação para o casal refletir e dialogar sobre os projetos em
comum, para recriar a relação afetivo-sexual, para buscar
ajuda de um profissional competente, quando necessário. O
principal é querer investir numa relação para que os
interesses e projetos confluam para o mesmo fim.
Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é pesquisadora e autora de
vários livros
Líder do Grupo de Pesquisa sexualidadevida/USP-CNPq
E-mail
toledobruns@uol.com.br
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