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Abuso sexual: a infância aprisionada ao
sofrimento
Por Maria Alves de
Toledo Bruns*
O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA)
estima que 2 milhões de crianças são
exploradas na prostituição ou pornografia a
cada ano. A idade média varia entre 12 e 17
anos. Realidade indigesta, indecente. A
opção por menino e ou menina depende do
país. No Nepal, estima-se que anualmente 12
mil crianças, principalmente meninas, são
vítimas de tráfico para exploração sexual e
comercial a fim de atender aos bordéis
nacionais e internacionais. As Filipinas
contabilizam 60 mil crianças vitimizadas. Em
El Salvador, um terço das crianças
exploradas sexualmente são meninos entre 14
e 17 anos.
Alguns dos fatores que alimentam esta
desoladora realidade são: a fuga de crianças
da violência de familiares (nesse caso há
sempre um aliciador a espreita); a
negociação pelos próprios pais e/ou
familiares e amigos.Esses constituem apenas
a pontinha nefasta do iceberg. A realidade é
mais cruel, essas fontes são mantidas e
retroalimentadas por organizações
internacionais que investem no turismo
sexual para atender a seus
clientes/pedófilos. Alguns, mesmo ao serem
denunciados pela mídia e receberem mandado
de prisão, não se desestimulam e não abalam
a estrutura de suas organizações. Importante
dizer: Sem esses clientes/pedófilos a
exploração sexual de crianças e de
adolescentes não existiria. Assim, a
infância continua sendo aprisionada ao
sofrimento. Sofrimento este que, segundo os
estudos acerca do incesto, tem a seguinte
característica: 85% dos casos de abuso
sexual em crianças e adolescentes são
praticados por agressores que desfrutam da
intimidade familiar, o que significa dizer
que o agressor é uma pessoa em quem a
criança ou o/a adolescente confia, a quem
admira, com quem compartilha afetividade e
de quem depende financeiramente. As
consequências da violência sexual independem
do tipo, ou seja: sem contato físico: abuso
verbal, telefonemas obscenos, vídeos/filmes
pornográficos, voyeurismo; com contato
físico: bolinações de genitais; coito ou
tentativa de; pornografia, prostituição
infantil e incesto; ou ainda com contato
físico com violência: estupro, brutalização,
assassinato.
Que pistas podem ajudar pais e educadores a
perceberem que a criança está sofrendo?
Pesadelos; distúrbios do sono; isolamento;
comportamentos regressivos, como fazer xixi
na cama; ataques de raiva sem aparente
motivo; doenças sexualmente transmissíveis;
insegurança; retraimento, entre outras. É
que, a criança/adolescente, por medo,
vergonha e culpa, tem dificuldade de
denunciar o agressor. Muitas vezes há “o
pacto do silêncio” da própria família.
É preciso que a família revisite seus
segredos, o que envolve, muitas vezes,
“quebrar” o seu silêncio em relação às
pistas identificadas e procurar meios para
retirar a criança/adolescente do poder de
seu agressor.
*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do
Grupo de pesquisa Sexualidade &Vida e
co-autora do livro "Educação Sexual pede
Espaço: Novos horizontes para a práxis
pedagógica", editora Omega.
Email:
toledobruns@uol.com.br |