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A revitalização do erotismo
Por Maria Alves de
Toledo Bruns*
Uma pausa e um olhar para o passado e suas
ressonâncias no modo de ser da mulher
contemporânea viabilizam pontuar que durante
séculos a mulher foi seqüestrada de seu
corpo, da dimensão de seu desejo, de sua
intimidade bem como de sua atuação no espaço
público. Nos dias atuais – século XXI –,
porém, estão visíveis pertinentes mudanças.
Sua conquista do prazer afetivo-sexual, por
exemplo, desencadeou significativas
transformações na sua auto-identidade, bem
como no seu modo de expressar o erotismo.
Nesse sentido, é possível dizer que está
havendo uma horizontalidade nas relações de
gênero. Constatam-se homens mais flexíveis
com a rotina do universo privado e as
mulheres menos dependentes de seus cuidados.
Todavia, um olhar mais aguçado na direção
das relações de gênero é capaz de indicar
que mulheres e homens de um modo geral estão
insatisfeitos em seus relacionamentos
afetivo-sexuais. A mulher se queixa de que o
homem continua se “protegendo”
emocionalmente, uma vez que não se permite
criar vínculos afetivos. Vínculos esses que
envolveriam pactos de confiança, os quais
significam renunciar ao controle, e
responsabilidade, que envolve o zelar e
predisposição para discutir a relação.
Projetos e ações da parceria seriam
avaliados e negociados num clima de
igualdade. O homem ouvido se queixa de que a
mulher, com a conquista de sua independência
sexual e econômica, ficou fria e
intolerante. Fria no sentido de não aceitar
aqueles seus deslizes ocorridos em saídas
com os amigos ou por sua indisposição para
ouvi-la narrar os acontecimentos do
cotidiano do trabalho ou o seu silêncio
diante daqueles assuntos tidos como “coisas
de mulheres”.
Nesse descompasso, os relacionamentos
adquirem um caráter experimental – alguns
não duram seis meses. Nota-se que a
comunicação entre os gêneros dificulta o
entrelaçamento da intimidade, da
cumplicidade e da revitalização do erotismo
tão importante para a construção de uma nova
ética amorosa fundada no diálogo. O diálogo
enquanto escuta compreensiva pode contribuir
para amenizar a raiva, o rancor e a
intolerância bem como para revisar os
padrões de pensamentos e das crenças
destrutivas aprendidas nas relações
intrafamiliares ao longo das gerações. Esses
padrões de pensamentos são como os vulcões
em estado latente – passam anos “calados”.
Mas silenciosamente “comandam”, nos mantêm
sob o domínio de desordens, entre outras,
das desordens de ansiedade e das desordens
depressivas tão comuns nos dias atuais.
A procura por profissionais competentes e a
disposição para compreender a “força do
vulcão interno” contribui para que homens e
mulheres possam ‘desconstruir’ o poder dos
padrões destrutivos e nesse processo de
discernimento abrirem-se para a
possibilidade de ativar/recriar/revitalizar
o erotismo – força criadora que nos dispõe
ao dialogo e a um modo de ser saudável.
*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do
Grupo de pesquisa Sexualidade &Vida e
co-autora do livro "Educação Sexual pede
Espaço: Novos horizontes para a práxis
pedagógica", editora Omega.
Email:
toledobruns@uol.com.br |