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A mídia e a adultização da infância
Por Maria Alves de Toledo Bruns*
Paradoxo – perplexidade para alguns;
desolação para outros. A realidade é que o
período da infância está sendo invadido
pelos modismos veiculados pela mídia, que
vem dificultando, de forma ousada, uma
transição saudável entre a infância e a
adolescência. Importante dizer que o
conceito de infância tem origem latina no
vocábulo infantia e significa incapacidade
de falar. Até o século XVII, a criança era
considerada um adulto em miniatura,
dependente e devendo obediência aos adultos
em troca de proteção por sua fragilidade.
Foi a partir dessa idéia de proteção, amparo
e de cuidados biológicos, somados à
submissão a uma rígida disciplina, que
criança atingiu o status de adulto. Assim,
essa fase do desenvolvimento humano vai aos
poucos ocupando lugar de destaque nas
pesquisas de modo a ser considerada por
Freud (o pai da psicanálise), no século XX,
como um período de latência, uma espécie de
preparo do corpo em todas as suas nuances –
físicas, hormonais, cognitivas, emocionais,
sexuais, entre outras – para, lentamente,
chegar à adolescência.
O que constatamos, porém, é que esse período
de latência está lentamente deixando de
existir para muitas meninas que desde os
cinco, seis anos, vêm se moldando ao estilo
do adulto – freqüentam o mesmo cabeleireiro
da mãe; fazem maquiagem; colorem os cabelos;
pintam as unhas; usam sapatos de salto,
bolsas, pulseira, entre outros acessórios de
adultos. Em suma, são uma miniatura do
estilo sexy do adulto. Para o olhar do
adulto, no entanto, este estilo pode ser
decodificado como um apelo sexual. Por outro
lado, cabe lembrar que crianças/adolescentes
de todas as classes sociais estão expostas
às imagens e mensagens de conteúdo
erótico-sexual que deveriam ser restritas ao
público adulto. Em paralelo a essa
realidade, os pais – mesmo aqueles que se
sentem modernos e preparados na hora de
bater aquela conversa com a filha (o) sobre
sexo – não raro se nublam e deixam para o
dia seguinte uma ótima oportunidade para
estabelecer limites sobre “os modismos”.
Um olhar atento a esse comportamento tem
revelado que a beleza do “mini-kit sexy”
pode mostrar um lado nada ingênuo da
realidade. Atualmente, estima-se que dois
milhões de crianças, garotinhas em maioria,
sejam abusadas sexualmente a cada ano,
fomentando a prostituição infantil e o
tráfico de crianças. Cruel realidade! A
indústria da mídia é movida pelo lucro e
pela audiência e tem como público alvo –
crianças e adolescentes – os quais são
seduzidos pelas estratégias criadas por
exímios profissionais do marketing, que,
descompromissados com os danos que possam
provocar nas crianças/adolescentes, os
mantêm sempre alertas para o lançamento da
nova pulseira, nova cor de esmalte, novos
adesivos de tatuagens, etc. Refletir sobre a
adultização e a hipersexualização da
infância e da adolescência é uma questão
polêmica, porém necessária e oportuna.
*Dra. Maria Alves de Toledo Bruns é líder do
Grupo de pesquisa Sexualidade &Vida e
co-autora do livro "Educação Sexual pede
Espaço: Novos horizontes para a práxis
pedagógica", editora Omega.
Email: toledobruns@uol.com.br |